sábado, 10 de julho de 2010

os 7 polacos.


Eu não sei o que raios aconteceu numa outra vida, se é que isso existe, mas com certeza eu tive alguma coisa com os poloneses. O fato é que, nessa encarnação, eles vieram com força total desde que eu me mudei para Londres.
Tudo começou na minha primeira busca por um lar londrino. Desesperada, minha companheira de alojamento me sugeriu entrar em um site espanhol. Lá achei uma casa que parecia (apenas parecia) ser boa, na mesma linha de metrô da escola, preço razoável etc etc. Toda a minha comunicação com o landlord foi em espanhol, e no dia que fomos nos encontrar, para eu conhecer a casa, me aparece um polonês que tinha morado na Espanha. Ponto 1: bizarro.
Ponto 2: me mudo para a casa. No quarto ao lado da cozinha: Pawel, Polônia. No quarto da frente: Olga, Rússia. No quarto de cima: Patrycja: Polônia. No quarto ao lado do meu: Dagmara: Polônia. E eu, excluída da comunidade do leste europeu.
Durante os quatro meses que morei nessa casa polaca em Mile End, a comunicação era uma coisa difícil. Os poloneses só falavam em polonês, a russa se exclua do resto do mundo em seu quarto (aparecia na cozinha de roupão, ia do quarto para o banheiro e o banheiro para a cozinha. Só a vi vestida em trajes normais uma única vez!) e as irmãs polonesas (que só fui descobrir que eram irmãs dois meses depois, primeiro achava que eram namoradas, depois amigas) tomavam posse da casa, faziam festas várias vezes por semana - e nem convidavam!, vomitavam o banheiro inteiro, jantares a luz de velas dominando a cozinha e não falavam nem um mísero 'bom dia, Isabela'. No último mês brigamos porque elas tiraram do varal todas as minhas roupas e jogaram no chão.
Pawel, era o único que se salvava nesse manicômio, 34 anos, artista plástico, sensível, interessado em outras culturas. Me deu de presente de aniversário um quadro lindo, que meses depois analisando, vejo que sou eu naquela casa, com autofalantes tampando os ouvidos.
Aguentei muitas festas, muito dance music polonês nos sábados às 8 horas da manhã, muitos choros polacos, muitos rabanetes com tomate e pepino no café da manhã, muitos resmungos e finalmente consegui me mudar da casa (história pra outro post).
Meses depois, passo na primeira fase de uma entrevista de trabalho, marco uma reunião com o Head Chef... encontro Karol, outro polonês.
Como o restaurante que eu trabalharia demoraria um tempo para ficar pronto - reforma, treinamento da equipe, licença etc - me mandaram para um outro para ser treinada. Chego lá, o Head Chef era português, mas quem iria me treinar? Bartek, cozinheiro polonês que tinha morado em Nápolis. Bartek era hilário, cozinheiro impecável, mas chato que dava dó. A parte boa é que ele sempre fazia meus almoços, gamou. Bartek ficou doente e teve que se ausentar do trabalho, eu assumi o seu posto e com isso, a tarefa de treinar mais um cozinheiro... polonês, Raphael, um pirulão de 2 metros de altura que nunca tinha entrado em uma cozinha na vida. Tudo o que eu explicava e ensinava a fazer, ele automaticamente deletava do cérebro e fazia do jeito dele, errado.
Mudo de filial do restaurante (outra boa história para contar), vou trabalhar em South Kensington com um Head Chef português e com o segundo Chef... polaco, Emin.
Emin, como 70% dos cozinheiros de Londres, odeiam cozinhar e só estão nesse trabalho para poder viver aqui. Por isso pra mim era tão difícil trabalhar com ele. A pessoa mais rasgueira que eu já conheci em 5 anos de cozinha, fazia tudo de qualquer jeito, e ainda criticava o meu jeito certinho e perfeccionista de fazer as coisas. Brigamos muito, até que um dia no auge da agressividade e falta de respeito do cidadão, no final do meu expediente fui reclamar com a gerente que era impossível trabalhar com ele.
No dia seguinte, Emin não apareceu. "Ficou doente" por uns 15 dias, e eu então assumi o cargo de Segunda Chef. Trabalhei domingos inteiros sozinha na cozinha, me virando e revirando, porque nunca tinha feito as tarefas dele. Mas deu tudo certo.
Emin voltou da sua licença todo fofo comigo, mas eu sempre desconfiei.
De qualquer maneira, eu me redimi com o povo polaco e aguardo meu lugar no céu. Ou até aparecer o Oitavo Elemento...

2 comentários:

Gabriela Cordaro disse...

isa na neve e os 7 polacos... conheci uma polonesa incrível, a Rena Mirecka... polonesa histórica! o leste europeu é muito doido, vai lá pra ver... mas me gusta! eles são muito diferentes da gente, deviam te achar mega et!

Jaderson disse...

Nossa muito bom seu texto, vc é demais! E tem mais esta questão com os poloneses deve ser algo do seu passado ianque!? não!?rs